quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O PT, 30 anos depois: o pragmatismo superou a ideologia

No Documentário Entreatos, sobre a campanha vitoriosa do PT nas eleições presidenciais de 2002, em uma das cenas, o então candidato Lula, líder nas pesquisas, fala sobre a necessidade de coligação para vencer as eleições.

Em outras palavras, ele relatou que alguns movimentos sociais e militantes mais à esquerda defendiam que era preciso realizar uma campanha focada no “socialismo”, para fazer com que, num prazo de 20 anos, a maior parte da população se identificasse com essas idéias e, aí sim, o partido pudesse chegar ao poder. “Eu não quero ser presidente daqui a 20 anos, quero ganhar agora”, reagiu Lula.

A mudança de comportamento do PT, que completa 30 anos nesta quarta, 10 de fevereiro, foi fundamental para que o partido chegasse ao poder. Se não era possível levar toda a população para a esquerda, foi Lula e o PT que se deslocaram para o Centro.

“Em sua trajetória histórica, como ente coletivo, o PT refletiu e mudou, mas nunca mudou de lado, como mostram as conquistas do governo Lula”, diz o texto “PT, 30 anos de militância”, assinado pelo Presidente do PT, Ricardo Berzoini, que deixa o cargo hoje, e pelo novo presidente, José Eduardo Dutra. (Leia aqui a íntegra).

O partido que recusava alianças na década de 1980, hoje faz todas as concessões para trazer o PMDB, seu aparato partidário e seu tempo de televisão para a campanha da Ministra Dilma Rousseff, primeira vez que vai para as eleições presidenciais sem Lula como candidato.

A própria escolha de Dilma para candidata mostra como o partido se modificou. Primeiro pela forma como foi escolhida: Lula disse que ela seria a candidata e pronto. Depois por ser um quadro de fora das bases históricas do PT – sua origem partidária é o PDT.

Confira uma cronologia com a transformação pela qual passou o PT desde aquela reunião em 10 de fevereiro de 1980 no Colégio Sion, em São Paulo, até chegar ao poder. Transformações que foram influenciadas, principalmente por Lula, o líder político que surgiu no Sindicalismo do ABC paulista e hoje é dos presidentes mais populares e carismáticos da história do Brasil. Com um governo com índices estratosféricos de aprovação, tornou-se muito maior que o PT e tentará transferir seu prestígio para eleger em 2010 sua candidata, Dilma Rousseff.

1980 – Em 10 de fevereiro, no Colégio Sion, em São Paulo, é fundado o Partido dos Trabalhadores, uma união entre sindicalistas e intelectuais de esquerda.

1982 – Lula foi candidato a Governador de São Paulo, terminando em quarto lugar. O partido conquistou naquelas eleições seus primeiros mandatos, de vereadores, deputados estaduais e deputados federais.

1985 – Após ter se destacado na luta pelas diretas, o partido se recusou a participar do colégio eleitoral que, indiretamente, elegeu Tancredo Neves. Os deputados Airton Soares, Beth Mendes e José Eudes, que contrariaram a determinação de boicote das eleições indiretas, foram expulsos.

1986 – Lula é eleito deputado federal constituinte por São Paulo com a maior votação da história até então.

1988 – O PT conquista sua mais expressiva vitória nas urnas: Luiza Erundina é eleita prefeita de São Paulo.

1989 – Nas primeiras eleições diretas após a ditadura militar, Lula consegue passar para o segundo turno, mas é derrotado por Fernando Collor. Naquelas eleições, o partido recusou o apoio de Ulisses Guimarães e do PMDB no segundo turno.

1990 – Lula decide não disputar a reeleição para a Câmara, mas mesmo assim o partido amplia sua bancada de deputados federais: José Dirceu, José Genoíno e Aloísio Mercadante são os principais nomes estrelas petistas.

1992 – O partido tem papel importante no processo de impeachment do presidente Collor.

1994 – Lula inicia a corrida presidencial na liderança, mas é suplantado pelo Plano Real, “que elege Fernando Henrique” ainda no primeiro turno. Lula critica o plano.

1998 –
Tendo conseguido aprovar no Congresso a emenda da reeleição, Fernando Henrique partiu para o pleito como favorito. A memória da inflação, e os conseqüentes benefícios do Plano Real, eram recentes. Lula foi para o sacrifício, sabendo que ia perder.

2000 –
O PT elege, Brasil a fora, uma grande quantidade de prefeitos. Destaque para a eleição da prefeitura de São Paulo, como Marta Suplicy. A crise internacional de 1999 já havia minado a popularidade do presidente Fernando Henrique.

2002 – Lula é repaginado pelo publicitário Duda Mendonça. O partido se alia ao PL, que indica o mega-empresário mineiro e senador da República, José Alencar, para vice na chapa. O partido divulga a “Carta aos Brasileiros”, dando garantias ao mercado de que não mudaria as bases da política econômica / fiscal. Lula lidera de ponta a ponta as pesquisas de opinião e é eleito, em segundo turno, com mais de 60% dos votos válidos, a maior votação nominal conseguida por um político no Brasil até então.

2005 – O PT enfrenta a sua pior crise, “O Mensalão”. Quadros históricos como José Dirceu e José Genoíno são afetados pela crise.

2006 – Apesar da crise, Lula consegue se reeleger, em segundo turno, também como votação superior a 60%.

2007 – O presidente inicia o segundo mandato com a popularidade ascendente, em função do bom momento econômico do País.

2008 – No final do ano, o mundo começa a sentir os primeiros efeitos da Crise Financeira Internacional. Enquanto as bolsas despencam mundo a fora, a popularidade de Lula toma o elevador para cima. A condução do governo durante a crise foi aprovada pela maioria da população. No mesmo ano, o presidente começa a sinalizar que sua candidata à sucessão será a Ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil.

2009 – O PT inicia as negociações com o PMDB para compor a aliança com a Ministra Dilma Rousseff. O partido começa buscar as bases nos estados. Lula bate novos recordes de aprovação pessoal, acima dos 80%.

2010 – O partido tem o maior desafio da sua história, disputar a primeira eleição presidencial sem Lula. As primeiras pesquisas eleitorais do ano encheram os petistas de esperança: elas mostram a que a ministra Dilma Rousseff reduziu a desvantagem para o candidato tucano José Serra, chegando a empate técnico dependendo do cenário. O partido oficializará em 18 de fevereiro a pré-candidatura de Dilma à Presidência. O partido tenta resolver questões regionais para assegurar o apoio do PMDB.

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3 Comentários:

Anônimo disse...

Meu caro, a política não é cor de rosa como se pensa. O objetivo de um partido político é chegar ao poder e para isso é preciso fazer concessões. O Brasil cresceu muito nos últimos anos e por isso Dilma será eleita para dar continuidade ao atual trabalho.

Anônimo disse...

Centro ? Concessões ?
Vocês devem estar brincando !

Lula é o maior lobo em pele de cordeiro da história do Brasil.
Cooptou o Collor (líder do PTB no Senado, da base aliada). Cooptou Sarney (Presidente do Congresso que só não caiu por que Lula o ajudou). Cooptou até o Edir Macedo (O Senador Marcelo Crivella é o preferido de Lula no Rio.

Vai sair do governo milionário, via Lulinha - o fenômeno.

Aliás deviam lançar o fime: Lulinha. O neto do Brasil.

Campbell, vamos falar sério !

José Augusto Mendes Ramos disse...

A dinâmica da Luta de Classes e da acumulação do capital mudou e muito no mundo atual. Uma vez brincando com um amigo do PSTU que ironizava a Carta aos Brasileiros de Lula em 2002, comparando-a com a NEP – Nova Política Econômica de Lênin na URSS de 1920...
Muita coisa mudou! No passado a simples presença física de militares e armas impediam o que Brizola afirmava das “perdas internacionais”. Num mundo globalizado, com economias cada vez mais sem limites fronteiriços em face de interesses estratégicos, o dinheiro investido, é e pode ser meramente virtual, não são tropas militares que protegem o vil metal e sim uma inserção qualificada e soberana num mundo cada vez mais dinâmico. É a lógica perversa do capitalismo que colocou o desenvolvimento tecnológico acelerado a serviço de suas premissas acumulativas.
O PT se construiu ao longo dos anos firmemente como um partido classista e de cunho transformador, daí a uma longa distância de afirmá-lo como um Partido Dirigente e Revolucionário, como gostariam os grupos Leninistas inseridos na militância petista.
Militantes das CEB’S Católicas vinculadas a Teologia da Libertação, correntes de caráter Leninista Revolucionário que criticavam o adesismo do velho Partidão, Grupos organizados vinculados a 4ª Internacional Socialista (Trotskista), Sindicalistas combativos que lutavam pela independência de organização sindical, desvinculados do Peleguismo Getulista, e Humanistas de todos os matizes, foram estes combatentes das boas e justas causas que construíram e fortaleceram o PT.
Da afirmativa classista e combativa que negava corretamente num período histórico a política convencional, a institucionalidade viciada e o colégio eleitoral que elegeu Tancredo Neves foram importantes. Mas na atualidade, não se permitir a uma reciclagem de reflexões, buscando a melhoria das condições de vida do povo sofrido, como faz Lula e o PT e nossa inserção soberana no mundo, como ator preponderante, é buscar de forma compulsiva a derrota, podemos sim disputar com a burguesia institucional a hegemonia dos trabalhadores, dirão muitos.
Independente de todo este debate sincero e de muita riqueza, o certo é que avançamos bastante com Lula e podemos avançar ainda mais, dadas as condições históricas. Avançar com sua continuidade expressada na escolha de Dilma.
Até onde vai aos dias atuais, a premissa Leninista de Organização Partidária, que identificava os partidos políticos como parte da sociedade, permitindo-se assim interpretações de Partido Único, em face de uma sociedade supostamente sem classes.
Interpreto que o PT continua contemporâneo e atualíssimo, independente de sua lógica institucional e eleitoral. As circunstâncias históricas nos apontam que o PT e sua concepção atual ainda não se superaram.
O desafio é agregar valores transformadores, vinculados ao desenvolvimento sustentável, às liberdades civis e de minorias, ao debate racial inclusivo, as questões ambientais, a participação popular e democracia direta.
Muita coisa há por vir e por ser interpretada, novas demandas vão surgindo com a construção de uma Democracia Social no Brasil, a partir do Governo Lula.
Este debate tem tanta riqueza e importância histórica, que não se resume a um conceito estático, estamos diante de uma perfeita dialética.
Augusto Ramos

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