Imparcialidade não existe, nem no jornalismo, nem na blogosfera
Sinto desapontar quem pensa o contrário, mas imparcialidade não existe no jornalismo, muito menos na Blogosfera . No jornalismo, o processo de edição (escolher qual notícia será publicada, qual destaque que vai receber, qual assunto ficará de fora, etc) já é parcial pela sua natureza. O mesmo vale para a blogosfera: ao escolher um tema para comentar ou uma notícia para reproduzir o Blogueiro já está sendo parcial.
Claro que é preciso fazer uma diferenciação entre blogs e imprensa como um todo. Blog é, por sua característica, uma ferramenta de opinião. Algo equivalente ao que se encontra nas colunas dos jornais. Aqui, neste blog, procuro, na maioria das vezes, trazer notícias que são publicadas pela mídia sob uma ótica diferente, priorizando textos exclusivos, notícias comentadas. .. Mesmo que, raramente (como agora), escreva em primeira pessoa, os textos são, sim, em sua maioria, opinativos.
Eventualmente, pela falta de tempo (este não é, ainda, um blog profissional) reproduzo algumas notícias de alguns sites na íntegra, mas sempre respeitando um princípio: só publico notícias de sites ou blogs que autorizem a reprodução (A Agência Brasil e o Congresso em Foco , por exemplo, são excelentes fontes às quais sempre recorro). Fora isso, disponibilizo pequenos trechos e links para as notícias completas. Afinal, se fosse simplesmente para ler o noticiário político, melhor seria o leitor ir para as páginas dos grandes portais, onde há equipes profissionais abastecendo o conteúdo o tempo todo.
Voltando à imparcialidade, quer dizer à parcialidade, já reparou nos títulos? Tanto na imprensa como nos blogs eles são um festival de parcialidade. Mais que isso: de desonestidade. Há casos incríveis em que contrariam o que diz o texto da reportagem ou do artigo ou são tendenciosos ao extremo. Um exemplo hipotético de algo que vi hoje no site de uma das revistas mais lidas no Brasil: deputado Beltrano diz que Partido dos Sicranos é uma corja de ladrões e, está lá a manchete, sem aspas, Partido dos Sicranos é uma corja de ladrões, tomando como verdadeira uma afirmação de um adversário político. Depois, o texto da matéria é correto, mas o título já contaminou completamente o conteúdo. Pode ser, em alguns casos, descuido; na melhor hipótese uma tentativa de chamar a atenção; mas tem hora que é má fé mesmo. Pura e simples tentativa de enganar o leitor.
Mas, felizmente, Internet é uma ferramenta de duas mãos. Se não é um espaço imparcial, é um lugar altamente democrático. Na Blogosfera Política , então, tem espaço para todas as tendências, tribos, ideologias. E o internauta busca, em geral, aquele blog cujas idéias e preferências sejam mais parecidas com as suas.
Eu, como gosto de política, leio de tudo, de Reinaldo “Odeio os Petralhas” Azevedo a Paulo Henrique “Pau no Zé Alagão” Amorim . Dois blogueiros que, senão são imparciais (e não são mesmo), pelo menos deixam claros seus pontos de vista, o primeiro pró-Serra e o segundo, pró-Dilma.
Mais legal é observar os comentários que recebem em suas postagens: a grande maioria de leitores de Reinaldo é simpatizante do PSDB, não gostam de Lula e têm pavor a Dilma, “a ex-terrorista”, a “mentirosa”. Quando aparece um comentarista que diverge do autor, logo os outros comentaristas descem-lhe o pau, isso quando não é o próprio autor quem vai para cima.
(Enquanto visitava o site da Veja, para pegar a URL do blog do Reinaldo Azevedo, encontrei seu último artigo, publicado às 17h01 de domingo, dedicado totalmente a um destes comentaristas que discordam do seu pensamento – clique aqui e veja você mesmo).
No Conversa Afiada, do PHA, idem, ibidem: os comentaristas idolatram Lula, amam Dilma e odeiam Serra, a quem chamam de “Vampiro”, “Zé Pedágio”, “Zé Alagão” e outros termos nada “simpáticos”.
Não que eu ache que estes sejam os melhores blogs e que todo blogueiro deva “levantar uma bandeira”, mas cada um tem seu público. E o mais interessante de compreender nesta magnífica Torre de Babel que é a internet é que os comentaristas não são simpatizantes de tendências A ou B porque são “influenciados” ou “manipulados” por estes blogueiros, mas ao contrário, procuram estes autores justamente porque já tem a opinião formada sobre determinado tema.
Não quero transformar este blog em uma ferramenta de propaganda política para A ou B, mas também não tenho a pretensão de me auto-proclamar “o imparcial”. Tenho minhas preferências, minhas convicções, mas não quero doutrinar ninguém. Convivo bem com a crítica, com o controverso e procuro trazer sempre opiniões múltiplas.
Arrisco-me a fazer análises de conjunturas e eleitorais e, não poucas vezes, sou acusado de estar favorecendo a A ou a B. Pode até ser que algumas vezes minhas preferências políticas contaminem minhas análises, mas procuro ser vigilante para que a emoção não supere minha capacidade crítica, a razoabilidade, a racionalidade e, principalmente, nunca desrespeitem a inteligência do leitor. Às vezes, derrapo, mas sempre tem alguém para acender o sinal vermelho.
No mais, blog, como disse, é uma ferramenta opinativa, todos são livres para concordarem ou discordarem de qualquer opinião e para irem e virem, sempre que quiserem!
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Texto indefectível!
Parabéns.
Rodrigo Drable
Concordo com sua análise!
A grande mídia no Brasil e no mundo, faz o debate ideológico não pelo prazer da boa discussão e do debate de idéias, faz este debate principalmente por razões de classe e conveniências econômicas. Qual seria a razão de quase toda a mídia brasileira ter apoiado a Ditadura Militar e ter se omitido em face de seqüestros, torturas e assassinatos praticados pelos agentes da ditadura, muitos inclusive apoiaram não só com sua criminosa omissão política, mas apoiaram logística e financeiramente.
Já que não há como fugir da imparcialidade, é importante assegurar o principio ético do contraponto, do contraditório, para não cairmos num tipo de imprensa marrom e de baixíssima qualidade.
O regime de concessões e a própria ética do jornalismo deve ser debatido pelo conjunto da sociedade e da forma mais transparente possível, um bom caminho foi à realização da I Confecom, mas foi o primeiro passo, conferência esta boicotada pela grande mídia, por interesses que notadamente são escusos e não democráticos.
Augusto Ramos.
Campbell, eu fazia parte dessa turma que só lia o que convinha. Contudo, nos últimos meses tenho lido de tudo. É extremamente salutar quando se dá ouvidos às vozes do "outro lado", mesmo que se tenha uma opinião formada.
Quando se pretende levar a imparcialidade como "marca" de um jornal ou revista 'A' ou 'B', presta-se um desserviço ao leitor que, contaminado por esta falsa impressão, acaba por assimilar (e difundir) "verdades" que, na verdade, carregam consigo cargas consideráveis de interesses, vontades, conceitos e formas de ver o mundo muito peculiares, condizentes somente a um determinado grupo social. Sou partidário da eliminação completa e definitiva do mito da imparcialidade na imprensa escrita. Embora alguns já o façam, todos os jornais e revistas deveriam assumir abertamente as suas preferências nos seus respectivos editoriais.
Agora, é necessário impor limites à parcialidade. Ela é importante ao desenvolvimento do debate quando exercida de modo civilizado, sem que paixões arrebatadoras por um ou por outro partido ou político se sobreponham aos reais interesses da coletividade. Ao assumir e defender o seu ponto de vista, não se pode cair no cinismo, na hipocrisia e, muito menos, no ridículo. Se não extrapolaram tais limites da civilidade, o Reinaldo e o Paulo Henrique, com seus linguajares pouco cordiais, estão bem próximos disso. Nada acrescenta um colunista chamar fulano de bobo e o outro pichar beltrano de feio. Só faltam mostrar a língua.
www.twitter.com/victordemb
Rodrigo, obrigado!
Augusto, eu só tenho uma esperança de democratização da mídia e chama-se Internet. Com o crescimento dos blogs, o que já está acontecendo, a possibilidade de se oferecer visões plurais dos acontecimentos, vai obrigar a mídia a se repensar.
Victor, pertinente seu comentário. De fato, se não é possível a imparcialidade, a honestidade é fundamental. Também acho que os jornais deveriam expor, claramente, suas posições políticas em seus editoriais, mas permitir também em suas páginas, como disse o Augusto, o contraditório, a pluralidade. E quanto ao Reinaldo e o PHA, verdade, eles vão longe de mais. Mas tem gente que gosta de ler simplesmente para reforçar suas impressões próprias, que muitas vezes carece de base ideológica.
Penso da mesma forma, Campbell! E seu último comentário está excelente!
Muitas vezes vemos as principais mídias favorecendo determinados políticos ou idéias ou omitindo informações por motivos não tão nobres. É claro que não se pode ser imparcial completamente, pois o fato de defender a verdade já é estar sendo parcial. Só que a própria verdade nos leva a sermos mais "justos" em nossas análises, tanto que isso pode ser confundido com imparcialidade.
Abraços!
Só um comentário técnico em relação ao Reinaldo Azevedo.
O cara falou merda. Endereços IP são dinâmicos e podem ser atribuidos a várias pessoas que se conectam em momentos diferentes. Logo, vincular 3 ou 4 nomes a um único IP foi pura idiotice.
Este endereçamento não tem qualquer vínculo com o usuário e mesmo n caso de PJ, não é vinculado ao nome da empresa. No máximo, sendo mto bom em segurança da informação, o cara conseguiria monitorar o tráfego daquele endereço e tentar concluir a que empresa pertence.
Fantastico texto... nada mais verdadeiro!
Linkei o eu post no meu blog (historiaemnoticias.wordpress.com). Acessa lá!
BJo
Campbell, é muito raro um blogueiro ou jornalista assumir essa posição de que a imparcialidade é impossível. Isso é uma pena, pois muitos leitores acreditam que há uma verdade única e se apoiam nesses veículos que defendem a suposta imparcialidade, e acabam se iludindo. No entanto, para corroborar isso, seria interessante se vc explicitasse sua opinião, para não haver mal-entendidos. Saber a linha editorial é uma linha de corte para quem acompanha seus "formadores de opinião", é uma luz que clareia os objetivos dos comentários mais neutros. De toda forma, te coloquei nos meus "favoritos", até breve!
Campbell, achei esse blog procurando alguém que enxergasse que o Paulo Henrique Amorim é parcial. Mas vai além. Por várias vezes elogiei os artigos do blog, mas por duas vezes publiquei no ConversaAfiada comentários críticos à sua postura no que diz respeito a tendenciosidade dos fatos e não fui publicado. Fui, se é que posso dizer, "censurado". Acho válido defender uma bandeira, ideologia ou partido, mas censurar minha opinião me faz duvidar da bandeira defendida e do Real interesse do blog.
Tem gente que tem dificuldade em lidar com a crítica. Aqui neste blog, durante muito tempo os comentários sequer eram moderados. Mas diante de diversos comentários maldosos, tendenciosos e alguns inclusive orquestrados, passei a moderar. De toda forma, aqui é livre a expressão. O comentarista pode criticar quem quiser, inclusive o blogueiro, só não estou admitindo boataria comprovadamente falsa que apenas empobrece o debate.
Obrigado pela visita e apareça sempre.
Abs.
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