Transferência de votos e o exemplo do Chile
Hoje é dia de eleições no Chile. O candidato da oposição, de direita, Miguel Sebastián Piñera, um dos homens mais ricos do país, lidera as pesquisas de intenção de votos e deve terminar o primeiro turno na frente do candidato governista Eduardo Frei Ruiz, de esquerda. Podemos traçar um paralelo entre o que acontece no Chile e o período pré-eleitoral brasileiro?
Com algumas ressalvas, sim. Tal como o Brasil, o Chile tem uma presidente de esquerda com alta popularidade, que já cumpre o segundo mandato e não pode disputar o terceiro, mas é a oposição quem lidera as pesquisas de intenção de votos.
Isso mostra que a transferência de votos não é algo automático e que é preciso mais do que um bom cabo eleitoral para vencer as eleições. O contexto político influi muito.
A disputa pela sucessão da presidente, Michelle Bachelet, é marcada por um intenso debate sobre questões políticas e sociais. Mas a divisão da coligação de esquerda, a Concertación, gerou o surgimento de dois candidatos autônomos e dificuldades para o nome oficial da aliança, o ex-presidente Eduardo Frei Ruiz é filho de Eduardo Frei Montalva (1964-1970) cuja suspeitas de ter sido assassinado por envenenamento vieram à tona nesta semana.
Nos últimos dias, Frei tentou colar sua imagem à de Bachelet no esforço de atrair votos. Apelou para o apoio dos ex-presidentes do partido, obteve garantias dos prefeitos das principais cidades que eles o ajudarão em um eventual segundo turno e provocou uma discussão sobre a revisão da Lei de Anistia – tema delicado e caro para os chilenos que viveram sob forte ditadura por 17 anos.
Frei foi presidente no período 1994 a 2000 e deixou o governo com baixa popularidade. A escolha de seu nome como candidato da Concertación envolve uma série de polêmicas e não obteve consenso. Foi escolhido, segundo integrantes do partido, por ter um perfil mais de centro do que os demais que se apresentaram à disputa dentro da coligação.
No Brasil, o contexto político é diferente, falta ainda bastante tempo para as eleições e, por isso, são importantes as ressalvas ditas acima. O contexto político é diferente. O PT, partido do Presidente Lula, não está no poder há 20 anos como a “Concertación” de Bachelet. Dilma também nunca foi presidente com Frei, da mesma forma que o tucano José Serra não pode ser comparado diretamente ao magnata Piñera.
O povo chileno pode até eleger Frei no segundo turno, mas não será exclusivamente pelo apoio de Bachelet. No Brasil, Dilma poderá ser eleita presidente (particularmente, acho que o contexto político lhe é bastante favorável), mas também não será exclusivamente porque Lula a abençoou.
O brasileiro votará em Dilma se entender que a sua eleição é importante para a continuidade de um governo que aprova, que é a melhor pessoa para tocar o Brasil daqui para frente. Não será, exclusivamente, porque Lula pediu.
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No blog leia “Existe transferência de votos?”













"a transferência de votos não é algo automático" . Isso é fato. Serra (ou Aécio) conseguirá minimizar o impacto do apoio maçiço do Planalto à Dilma se conseguir passar para o eleitorado que não é um anti-lula. Difícil...
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