sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Existe transferência de votos?

Não acredito em “transferência de votos”. Pelo menos não da forma como a expressão foi popularizada, que o eleitor vota em determinado candidato apenas pela indicação de um governante popular.
Isso significa que o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não será relevante nas eleições presidenciais de 2010? Ao contrário, ele será (e já está sendo) um ator principal no pleito, mas não se pode imaginar que haverá um passe de mágica, em que Lula coloca as mãos sobre a cabeça da ministra Dilma Rousseff e ela se transforma na presidente eleita.
Pesquisas de opinião tentam medir o poder de transferência de votos de Lula. A pesquisa CNT/SENSUS, de setembro, mostrou o seguinte: 20,8% dos entrevistados responderam que o candidato de Lula seria o "único" em que poderiam votar, 31,4% responderam que "poderiam" votar e 20,2% responderam que "não votariam" em um candidato apoiado pelo presidente. Para os demais, o apoio de Lula é indiferente.
As mesmas pesquisas indicam que os brasileiros estão satisfeitos com a vida que levam, avaliam positivamente o governo e principalmente a imagem do presidente. Isso pode ser observado na pesquisa IBOPE, contratada pelo PSDB. A economia dá sinais positivos e nada indica que haja na população um sentimento de mudança Com base nesses dados, a estratégia governista está mais que definida e propagada: transformar o pleito em uma eleição plebiscitária, em que não estarão em jogo Serra ou Dilma, mas sim a “continuidade” ou “retrocesso” de um projeto político bem avaliado.
Para conseguir a “eleição plebiscitária”, Lula usa sua força política para conquistar uma ampla coligação para Dilma e minar a candidatura de Ciro Gomes. Fosse apenas a transferência de votos, nada disso seria necessário: bastaria o presidente ir para a TV dizer que Dilma é sua candidata e esperar a apuração dos votos para comemorar.
O fator decisivo, então, não é saber se Lula transfere votos ou não, mas entender como o eleitor vai encarar o pleito do ano que vem: verá em Dilma a garantia da continuidade de um projeto bem avaliado, algo como a representação do terceiro mandato de Lula, a quem a Legislação impede de concorrer? Ou, apesar de estar satisfeito com o atua governo, identificará no candidato do PSDB (José Serra, a princípio) as melhores qualidades para tocar o país daqui para frente, sem comprometer os avanços da “Era Lula”?
Antes das campanhas irem para as ruas e o cenário de candidaturas ser totalmente definido é arriscado demais responder a essa questão.

(Publicado originalmente na Coluna Entrelinhas, na Revista Medio Paraíba)

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